A costura como herança, o cuidado entre linhas e a criatividade entre os dedos. A Com amor, Dora nasceu pela simples vontade de colocar a minha costura no mundo de uma forma criativa, colorida e aconchegante.

Dora

12 de janeiro de 2016

Nordestina – a cidade que me fez crescer

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Em novembro de 2015 eu recebi um convite carregado de responsabilidade com um leve toque de aventura. Pegar a estrada até Nordestina, uma cidadezinha no meio do sertão baiano, para compartilhar com mulheres de uma comunidade quilombola da região meus saberes sobre costura. Aceitei feito uma menina sonhadora que viu naquela oportunidade uma chance de abrir mais o coração, levar doçura e luz para a vida de mulheres fortes e na maioria das vezes, endurecida pelas histórias que a vida insistiu em contar. Uma ligação, mil trocas de e-mail e tudo certo. Uma empresa, a LIPARI, ajuda a comunidade com projetos sociais a fim de cuidar da cidade e pessoas que lá moram. Mas isso não vem ao caso, minha missão era com aquele grupo de vinte mulheres num espaço sociocultural organizado por freiras descoladas que usam tshirts e saia midi por conta do calor que faz por lá. É tão quente que a gente nem vê sombra de árvore rs.

Pegamos a estrada 5h da manhã para podermos chegar a tempo de fazer tudinho num dia só, voltaria a Salvador na manhã seguinte às 7h. Como a cidade é longe e tem poucas linhas de ônibus, peguei carona com o carro da empresa que vive na estrada Lauro de Freitas-Nordestina. A viagem me encheu os olhos de uma beleza seca, dura, triste. Crianças na beira da estrada brincando com seus carrinhos, homens com seus burros de carga e mulheres com balde d’água na cabeça, feito filme de sertão que a gente vê na sessão da tarde. Vi muitos tanques, muitas bicas e baldes. Pouco verde muita terra e sol. Mas vi beleza: estava no meio do sertão. Depois de quase 5h de estrada, chegamos e a primeira lembrança que me veio foi a minha cidadezinha lá no sul da Bahia, Itajuípe. Senhorinhas sentadas na porta, adolescentes e crianças saindo da escola, homens trabalhando em oficinas e mercadinhos, uma vida mansa e simples.

 Depois de um breve almoço, fomos visitar as freiras que iriam me ajudar com as mulheres e máquinas. Um pé de manga em cada esquina, uma rua de paralelepípedos e cachorros na praça principal. Estava com medo, medo de não suprir a curiosidade e vontade daquelas mulheres, medo de não dar conta de tamanha responsabilidade, a vida de alguém pode mudar nessas 4h de oficina. Ah, a oficina: ensina-las a costurar tiarinhas de tecido para aumentar a renda da comunidade. Retalhos, arame, uma máquina de costura e boa vontade. Algumas mulheres foram resistentes ao uso da singer e preferiram costurar à mão, ponto a ponto. Foi lindo, lindo ver mãos que carregam peso, mãos sofridas, costurarem linhas e tecidos com tanta delicadeza.

 Percebi olhares curiosos: – O que essa menina tatuada, com uma argola no nariz e tão novinha quer aqui com a gente?! Abri o sorriso, dei boa tarde e a tarde boa veio. Aquelas senhorinhas, quarentonas e até uma jovem aprendiza me rememoraram  minha vó que pouco conheci, minha mãe, minhas tias, minhas vizinhas e ex-alunas (EJA). Vejo em cada linha expressiva do rosto e mãos, histórias de vida que eu não faço ideia, então, a bondade e carinho que posso dar é o mínimo, mas eu tentei. No fim do dia todas com suas tiarinhas na cabeça, vou levar pra minha filha, minhas sobrinhas, ah, as amigas da minha neta vão adorar, vou cortar os lençóis lá de casa pra fazer tiarinha e vender pro Natal que tá chegando. Que nada menina, corta a bainha do vestido logo, dá pra usar a fronha do travesseiro de casal. Tudo virou arte, tudo virou trabalho, renda, criatividade para viver e sobreviver naquela terra tão cheia de dureza e esperança.

 Nordestina é cidade de um dos meus filmes prediletos, A máquina, de Adriana falcão. Nordestina me deu uma lição, me deu esperança e fé num mundo mais justo. Quero mais cidades como Nordestina e mais mulheres como a Edna que até hoje me manda mensagem no whatsapp (modernas) com fotos das tiaras que produz e vende para as amigas. Meu trabalho não é só meu, não é só pra mim, é para a humanidade.

 

 

 

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5 respostas para “Nordestina – a cidade que me fez crescer”

  1. Helga disse:

    Ei Dora, meu irmão trabalha na LIPARI, então vai muito à Nordestina. Sempre fico curiosa com uns casos que ele me conta, com vontade de conhecer a cidade. O seu texto ficou INCRÍVEL, me fez ficar ainda mais curiosa e também mais imã vez a CERTESA de que a vida é muito simples, a gente é quem complica tudo, de que há MUITA gente boníssima por aí. Parabéns pelo seu trabalho e sua DOAÇÃO. Até!

  2. Celeste Rodrigues disse:

    Bom dia flor!!
    Fiquei encantada com seu texto retratando Nordestina… estou morando aqui há 1 ano, mudei para acompanhar meu esposo que trabalha na Lipari, recebi a tiara de presente e fiquei muito curiosa para saber do seu trabalho. Que papai do céu te leve sempre a lugares que possa fazer mudança na vida de quem precisa.
    Super Beijo e Parabéns pelo trabalho realizado.

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