A costura como herança, o cuidado entre linhas e a criatividade entre os dedos. A Com amor, Dora nasceu pela simples vontade de colocar a minha costura no mundo de uma forma criativa, colorida e aconchegante.

Dora

25 de abril de 2016

O Rebento Chamado Amor

Eu sei que um dia os seus dentes irão cair, eu também sei que um dia você vai ter vergonha dos carinhos da mamãe na frente dos amigos e vai preferir o futebol ao suco com pipoca assistindo sessão da tarde com seu pai. Eu sei que muita coisa vai mudar, mas sei que o amor por você será eterno, desde o dia em que te vi do tamanho de uma ervilha no meu útero gravídico e seu coração pulsante batendo a mais de 120 por hora, batia mais rápido que o coração do seu pai ao te ver pela primeira vez.

Sabia que você é um baby de esquerda?! Sim, fecundado no ovário esquerdo em tempos de #nãovaitergolpe, dando orgulho aos pais desde semente. Mas quando você crescer isso tudo vai ter passado e estaremos vivendo num país livre de corrupção onde a população tenha liberdade de ir e vir, quero para você um mundo melhor de se viver e lutarei por isso.

A mamãe tá sentindo que você vem cheio de saúde, minhas energias agora são todas suas, ando cheia de sono e cansada, preciso me alimentar melhor pro mim e por você, mas os enjoos não me deixam comer bem, eca. Durmo e acordo com o estômago embrulhado, mas dizem que isso passa logo depois que você vai crescendo e ficando mais bolinho de carne fofinho e gostosinho. Não vejo a hora de te apertar, de ver o nariz de batata e as orelhas de abano do seu pai em você. E o sorriso meu, é minha única exigência. O sorriso que sua bisavó ensinou a sua avó que me ensinou quero ver estampado na sua boquinha.

Ah, estão todos felizes, seus avós radiantes e seus tios ansiosos pela sua chegada. Alguns amigos do papai e da mamãe estão sabendo agora que você tá chegando, se prepara que vem mimo e mais mimo por aí, bando de titias e tios babões. Você vai viver cercado de amor, amor por todos os lados, isso meu filho, nunca irá faltar.

Eu e seu pai estamos num estado de nojeira que não cabe no papel. Ao acordar o primeiro bom dia é seu, o carinho no banho, o perfume de alfazema para acalmar, a música bonita para te deixar feliz e dançante desde a barriga. A gente não sabia, mas já queria você na vida há muito tempo. Alguns dirão que é cedo demais, mas me diga, há tempo para o amor nascer de outro amor? Eu acho que não. Você veio na hora certa, coração da mamãe em paz e a certeza de que o seu pai seria o seu pai.

Mesmo com as adversidades que nós três iremos encontrar no meio do caminho, os perrengues, as dores e dificuldades serão pequeninas perto da vontade de se estar junto como uma família. Eu já te disse que não vejo a hora de você, menina ou menina, ditar no meio dos dois e atrapalhar o sono, te pegar no colo e encher de beijinhos. Mas por enquanto, cuido de você na minha barriguinha ainda mole. Alguns diriam que é cedo demais para contar ao mundo a sua vinda, mas as pessoas falam demais, né?! Quando a gente tá feliz, muito feliz, quer gritar ao mundo. Eu esperei um pouco para contar sobre você, mas eu não aguentei esperar muito, mãe ansiosa, já estou me descobrindo como uma.

Nesses nossos primeiros meses juntos já vieram as atribulações, os choros, as mudanças no corpo da mamãe, as indisposições, perdas no trabalho, carências, tristezas repentinas, uma terna tpm, mas tento me manter firme e forte por mim, por seu pai e por você, minha preciosidade. Juro que a cada dorzinha chata, a cada lágrima de tristeza, a cada obstáculo irei resistir e ter a força de uma leoa para te manter feliz e seguro.

                                                                                                                     Com amor, mamãe.

p.s. eu te amo, nós te amamos.

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Livro que a mamãe ganhou do Tio Ícaro

 

Diário que você vai ler quando tiver grande!

Diário que você vai ler quando tiver grande!

 

Quando você era uma azeitona pulsante

Quando você era uma azeitona pulsante!

12 de janeiro de 2016

Nordestina – a cidade que me fez crescer

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Em novembro de 2015 eu recebi um convite carregado de responsabilidade com um leve toque de aventura. Pegar a estrada até Nordestina, uma cidadezinha no meio do sertão baiano, para compartilhar com mulheres de uma comunidade quilombola da região meus saberes sobre costura. Aceitei feito uma menina sonhadora que viu naquela oportunidade uma chance de abrir mais o coração, levar doçura e luz para a vida de mulheres fortes e na maioria das vezes, endurecida pelas histórias que a vida insistiu em contar. Uma ligação, mil trocas de e-mail e tudo certo. Uma empresa, a LIPARI, ajuda a comunidade com projetos sociais a fim de cuidar da cidade e pessoas que lá moram. Mas isso não vem ao caso, minha missão era com aquele grupo de vinte mulheres num espaço sociocultural organizado por freiras descoladas que usam tshirts e saia midi por conta do calor que faz por lá. É tão quente que a gente nem vê sombra de árvore rs.

Pegamos a estrada 5h da manhã para podermos chegar a tempo de fazer tudinho num dia só, voltaria a Salvador na manhã seguinte às 7h. Como a cidade é longe e tem poucas linhas de ônibus, peguei carona com o carro da empresa que vive na estrada Lauro de Freitas-Nordestina. A viagem me encheu os olhos de uma beleza seca, dura, triste. Crianças na beira da estrada brincando com seus carrinhos, homens com seus burros de carga e mulheres com balde d’água na cabeça, feito filme de sertão que a gente vê na sessão da tarde. Vi muitos tanques, muitas bicas e baldes. Pouco verde muita terra e sol. Mas vi beleza: estava no meio do sertão. Depois de quase 5h de estrada, chegamos e a primeira lembrança que me veio foi a minha cidadezinha lá no sul da Bahia, Itajuípe. Senhorinhas sentadas na porta, adolescentes e crianças saindo da escola, homens trabalhando em oficinas e mercadinhos, uma vida mansa e simples.

 Depois de um breve almoço, fomos visitar as freiras que iriam me ajudar com as mulheres e máquinas. Um pé de manga em cada esquina, uma rua de paralelepípedos e cachorros na praça principal. Estava com medo, medo de não suprir a curiosidade e vontade daquelas mulheres, medo de não dar conta de tamanha responsabilidade, a vida de alguém pode mudar nessas 4h de oficina. Ah, a oficina: ensina-las a costurar tiarinhas de tecido para aumentar a renda da comunidade. Retalhos, arame, uma máquina de costura e boa vontade. Algumas mulheres foram resistentes ao uso da singer e preferiram costurar à mão, ponto a ponto. Foi lindo, lindo ver mãos que carregam peso, mãos sofridas, costurarem linhas e tecidos com tanta delicadeza.

 Percebi olhares curiosos: – O que essa menina tatuada, com uma argola no nariz e tão novinha quer aqui com a gente?! Abri o sorriso, dei boa tarde e a tarde boa veio. Aquelas senhorinhas, quarentonas e até uma jovem aprendiza me rememoraram  minha vó que pouco conheci, minha mãe, minhas tias, minhas vizinhas e ex-alunas (EJA). Vejo em cada linha expressiva do rosto e mãos, histórias de vida que eu não faço ideia, então, a bondade e carinho que posso dar é o mínimo, mas eu tentei. No fim do dia todas com suas tiarinhas na cabeça, vou levar pra minha filha, minhas sobrinhas, ah, as amigas da minha neta vão adorar, vou cortar os lençóis lá de casa pra fazer tiarinha e vender pro Natal que tá chegando. Que nada menina, corta a bainha do vestido logo, dá pra usar a fronha do travesseiro de casal. Tudo virou arte, tudo virou trabalho, renda, criatividade para viver e sobreviver naquela terra tão cheia de dureza e esperança.

 Nordestina é cidade de um dos meus filmes prediletos, A máquina, de Adriana falcão. Nordestina me deu uma lição, me deu esperança e fé num mundo mais justo. Quero mais cidades como Nordestina e mais mulheres como a Edna que até hoje me manda mensagem no whatsapp (modernas) com fotos das tiaras que produz e vende para as amigas. Meu trabalho não é só meu, não é só pra mim, é para a humanidade.

 

 

 

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23 de novembro de 2015

O dia em que o meu coração parou

Minha vida mudou numa velocidade que a mais rápida das tartarugas iria desconfiar de tamanha destreza para tal feito de amor. Quero contar aqui sobre o dia em que o meu coração parou: Dora resolveu se abrir para o mundo e encontrar de vez o seu amor, o amor de um homem inteligente, bonito, cheio de jeitos para falar e filosofar sobre o amor, só amor. Signo de elemento terra o meu, ele água que há de abrandar a poeira que levanto toda vez que me movo, ele me cuida, me acalma, se doa e ganho paz. O saldo final é mais positivo que mil divãs e fatura de cartão de crédito estourado. Veio com uma força leve, uma mansidão de coração, fígado e pulmão. O meu amor da minha vida me conheceu quatro dias depois dos meus vinte e cinco anos, demorou nove meses para voltar e fazer casa no meu mundo moinho. Quando a gente se machuca, dói. E tem medo de doer e doer e doer e doer sem parar, sem cessar. Com ele não teve medo, teve esperança de ser. Escreveria mil linhas sobre o meu amor. Como disse, ele veio, deu vexame, esqueceu o óculos bêbado na minha bolsa e se perdeu no mundo. Beijou outras bocas, eu brinquei de achar um amor em cada esquina, trabalhei, dei o meu melhor, realizei um sonho, depois que o mar violento na terra de uma capricorniana se acalmou, ele veio feito um peixinho glub glub e me fez acreditar mais uma vez na felicidade. Sabe quando a gente acha que nada mais amor?! Mentira. Há amor sim, sempre haverá, não importa onde ele esteja e de onde ele venha, há amor, Dora. Aquela história clichê de saber se amar para deixar que o outro te admire, verdade. Passei noites a fio trancada no quarto imaginando se um dia seria feliz ao lado de um homem bom, de bem, se aquela solidão enfim se transformaria em solitude e tudo seria um infinito de luzes pisca-pisca. O meu amor ama pão, café e cigarros. Eu trabalho, acordo cedo e vivo de chá gelado. Medimos juntos três metros e vinte e seis centímetros. Ele escuta Caetano como eu escuto Rubel. Músicas de amor embalam nossas declarações de amor sobre filhos, futuro e sonhos. Laura, Irene, Rosa, Caetano e Francisco se os negócios prosperarem e ele passar num concurso público para professor. Quando ele dorme aqui em casa, cama grande, meia noite o sono vem. Paredes brancas, lençol rosa e uma janela para o mundo. Quando dormimos em Saramandaia a cerveja, os amigos dele, o sono se perde e a agonia de não desperdiçar tempo dormindo nos move. A cama de solteiro se transforma no mar de um pisciano com ascendente em câncer. Pois é, Dora, você está plena, leve e finalmente, feliz.

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22 de fevereiro de 2015

A culpa é da Dora

A culpa é da Dora. A culpa é sempre da Dora, óbvio. Se o boy não ligou no dia seguinte, se um raio caiu em cima de uma árvore em Magé ou até mesmo se a gasolina subiu, a culpa será sempre minha, minha. Não sei o real motivo (só os terapeutas de plantão saberão a explicação plausível para essa culpa caótica) de sempre achar que a culpa é minha. As pessoas nunca podem fazer nada; os boys podem não achar muita graça nas minhas piadas ou não sentir aquela formiguinha do desejo cutucar o coração, normal, né. Mas eu vou achar que falei algo errado, pisei no calo, paguei a conta, servi minha cerveja e falei palavrão. Para mim o outro inexiste e a sua capacidade de sentir outras coisas que não estejam ligadas a minha pessoa é irracional para uma garota que sofre de culpa patológica.

(um breve parênteses para explicar que escrevo textos relacionados ao mimimi que é a minha vida amorosa)

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Coisa rara é ter um date; me arrumar toda linda, passar a tarde no shopping escolhendo aquela roupa, depilação, limpeza de pele, manicure, pedicure e muita frescurite. Depois que o Tinder entrou na minha vida desamorosa nunca mais fui num date natureba, aqueles que você conhece a pessoa sem ajuda de algum app e depois quer saber se ela gosta de sorvete de pistache e acarajé com sukita. Enfim, voltando à culpa amorosa, na sua cabeça o date está lindo, você sorri sem mostrar os dentes, não pede o boy em namoro e não chora falando do ex, pontos para você. De manhã você acorda esperando o whatsapp apitar loucamente com mensagens fofas do boy e nadaaaaaaa, nada no mar da culpa. O que será que eu fiz?! Tinha meleca no meu nariz, espinha na testa, bebi demais da conta, contei piada feminista, ele não gosta dos Ramones, prefere Pablo, o que eu fiz?! Passo o dia relembrando cada etapa do date e de acordo com minhas capacidades mentais de ser legal, interessante e despojada foi toda usada e ainda sim o boy não mandou mensagem (ninguém liga mais no dia seguinte, ouvir a voz é quase um pedido de casamento), o que será que eu fiz, a culpa é minha?!

Depois de um breve período nas trevas da paixão, a ficha cai certeira na razão do amor (se há mesmo razão para a empatia carnal): ele não estava tão afim de você, cara. Ele pode ser um chato, quadrado, machista e bundão ou ele é um cara legal, bacana e gente boa, mas não foi com a sua cara, acontece viu. Ele, na verdade, votou no Aécio, vai pra festa de camisa colorida e quer uma planta do lado, não uma mulher. Outra explicação lógica: ele morreu, tomou uma queda no banheiro e por isso não te mandou mensagem no dia seguinte.

A culpa a gente alimenta que nem tartaruga no quintal de casa, água da chuva e folhas do pé de hortelã. Não tem esforço algum.

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10 de janeiro de 2015

Nonchalance

Sabe aquela sensação de não saber mais em que lugar você está?! Então. Acho que há tempos não sou mais uma adolescente destemida que sonhava conquistar o mundo, ter porres homéricos e não se preocupar com as contas no fim do mês. Eu mudei e você também, velho. Ainda não me considero uma mulher adulta em plena maturidade hormonal, segura de si e com a vida mais estabilizada que a placas tectônicas do Novo México. Em que lugar uma menina com pele de pêssego e vinte e seis anos se encontra?! Acho que é o limbo pós-adolescência e pré-vida-chata-adulta. Ter vinte cinco anos é legal, sonoro e mítico. Mas ter vinte e seis anos é estranho, cabuloso e inexplicavelmente legal. Apesar de só ter entrado na minha nova fase há umas seis horas, já me sinto uma “menimulher”.

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Hoje sou uma pessoa mais sábia, me relaciono com pessoas que me fazem bem e deixo para lá certos detalhes que só deixam rugas e envelhecem o coração. Sempre tive medo da maturidade, não saber o que fazer com ela, ou deixar que a dureza da vida tomasse conta de uma leveza que tive até os vinte anos. Mas agora, percebi que a minha leveza e “nonchalance” nunca saíram de mim, só deixei elas adormecidas durantes uns anos. Não me preocupo se você aí me acha meio fútil e sem muitos títulos academistas, não me preocupo mais se o boy vai ligar ou não no dia seguinte, se a conta do banco vai vencer e a grana ainda não tá na carteira, se vou precisar pagar caro num táxi para chegar em casa sã e salva, e melhor, eu não me preocupo mais com as coisas pequenas, inúteis que tanto me tirou o sono há tempos atrás. Mas é claro que o brinco precisa combinar com o esmalte e as despesas do mês devem estar devidamente anotadas num planilha excel.

Sabe aquela história de que o tempo responde angustias? As minhas ainda estão pela metade; assisti muita novela mexicana na infância e meus traumas ainda estão longe de serem curados pela idade avançada e experiência de vida. Porém, algumas gotinhas de culpa se esvaíram pelos meus dedos que hoje sabem cortar bem um tecido e costurar entrelinhas. Ainda tenho muito que aprender nessa coisa toda que chamam de vida; muitos tocos pra dar/levar, alguns porres para esquecer e muita gente pra amar e carregar no peito. Hoje tenho muito mais cede de encarar a vida como ela é, saber de tudo e correr atrás do que mereço e sonho.

 

Look all around, there’s nothing but blue skies
Look straight ahead, there’s nothing but blue skies…

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30 de agosto de 2014

No tempo da costura – Rosa

“Os olhos dela ensinam estrelas a brilhar
Vai doer
Os braços dela ensinam ondas a quebrar
Vai doer, vai doer, mas depois vai passar, rosa
Vai você que eu não tardo em chegar, rosa”

Vó Sofia criou seus netos como filhos com ajuda de Tia Rosa, minha avó de alma. Minha avó Heloísa morreu logo depois que eu nasci, só deu tempo mesmo da gente se olhar nos olhos e saber que estaríamos ligadas para sempre por uma mulher chamada Rosângela Acássia, minha mãe. Maínha me conta que foi Vó Heloísa quem costurou todo o meu enxoval, minhas camisolas de neném e todas as outras coisas possíveis que um bebê precisa para sobreviver quentinho e feliz. Minha mãe tricota. Desde que me entendo por gente ela mexe nas agulhas grossas para fazer roupas de aquecer, nossas noites eram na cama grande com revistas espelhadas pelo lençol e meu desejo por todas aquelas roupas coloridas dos folhetos que Maínha prometia tricotar e que me lembro, nunca fez um dos modelos que escolhi. Hoje lembro com graça.

Então, sem minha avó por perto, eu cresci na casa de Tia Rosa. Era só chegar da escola, tomar banho (às vezes nem isso, meus banhos eram lá no chuveiro gelado que só, o sabonete Alma de Flores e Alfazema para aquietar a menina), almoço sempre meio-dia em ponto, bolinho de carne, omelete, lombo, rolinho de repolho, um ovo frito na manteiga espetacular, depois do almoço, soneca numa cama de solteira com mosquiteiro. Tia Rosa era separada, desquitada, pra frente, na verdade todas as mulheres lá de casa são assim, arretadas e independentes, vão onde querem estar. Tia Rosa perdeu seu primeiro e único filho. Logo depois que a criança nasceu e morreu esqueceu-se de amar o marido, voltou pra casa da mãe e de lá só saiu quando todos morreram e sozinha não poderia ficar. Umas três horas da tarde, tudo se ajeitava e a máquina começava a bater e eu sentava na beira da saia catando linhas, dedal e agulhas. Tia Rosa não costurava para fora, ali era o seu acalanto, seu modo de encarar as dores que o destino lhe trouxe. Por muito tempo trabalhou na biblioteca de uma escola pública da cidade. Sabia escrever e em seus vários cadernos de anotações a vida se preservava, anotava quem nascia e quem morria, suas medidas e suas contas. A mesa da máquina azul ficava no corredor da casa bem em frente ao seu quarto. Ela sentada na máquina cosendo seus vestidos, panos de prato (que depois pintava à mão), toalhas de mesa e tudo que uma mão sadia podia costurar.

 

Acho que a solidão é o que nos une, ficar a sós com a gente mesmo, uma máquina de costura e alguns retalhos, e dali nascer algo de nossas próprias mãos que ganhará vida em outras mãos. Foi com ela que aprendo a amar tecidos, cada pedacinho de linha e aviamentos tantos, por conta da minha velhinha foi que me tornei que sou hoje, a Dora que ama e vive costurando amor e dor.

                                                   

 

Com amor, Dora.

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22 de agosto de 2014

Fragmentos

27 de maio

Minhas caras amigas, quando fico muito tempo sem escrever podem esperar duas coisas: minha vida está uma bosta, tediosa e chata ou estou fervilhando em estradas que não me permitem descrever em linhas públicas. Mas ainda temos outra opção: falta de tempo mesmo.

15 de agosto

Correr riscos entre amar e deixar o coração em descanso etéreo, qualquer escolha ou modo de se viver o amor dói. O que me mentem em pé é a esperança de um futuro que se aproxima mais rápido que o voar do meu passado cheio de portas entreabertas e linhas, margens e traços desmedidos. Minha paixão pela ânsia do vir é mais forte que a dor do passar. Muitos passaram, muitos irão embora, mas a minha dança de gafanhotos esperançosos fica.

Algumas pessoas acham graça, outras tem dó, mas eu nem sei mais o que pensar.

Penso que estou do lado errado da moeda. Minhas pernas caminham por onde eu não pedi. Se tem alguma coisa em que acredito é no amor, mas ele sempre trata de forjar suas caras e bocas e me traz o que eu não precisava, abandonos.
22 de agosto

Dizem que toda mulher de capricórnio tem o ar melancólico, uma dor perene, como nasci no dia dez de janeiro, não fujo muito a regra. Minhas vontades acerca do amor vão além da minha capacidade emocional de aguentar qualquer solidão frágil e despedaçada. Hoje me basto, me dôou e muitas vezes não me aguento, mas isso de ser só por muito tempo acaba acostumando a gente e afastando os outros. Meus olhos, meu mundo, vocês todos estão de fora.

Sabe o que é pior disso tudo?! Não poder fazer absolutamente nada. Nem o Tinder vai me ajudar nessa. Eu não posso obrigar ninguém a gostar de mim, mas também não fazer nada para mudar isso implica num comodismo mórbido, ter preguiça das pessoas e perder a paciência com os mínimos detalhes, jogar não dá. Não tenho estômago, fígado e pulmão para os jogos de amor na era da comunicação vazia onde há apenas o boa noite, bom dia e como você tá, cara. Meu humor varia de acordo com a música que escuto, portanto não se incomodem se o humo aparecer absurdamente apurado e com um tom folk de ser.

Deixa eu contar uma coisa, a melancolia antes citada dura apenas os minutos que o meu coração pede socorro por viver só, mas essa melancolia passa (mentira, só de leve) quando penso que nada, mentira. Não queria terminar esse texto com um tom de ninguém me ama e ninguém me quer, pois alguns querem, mas o amor é importante, porra.

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4 de julho de 2014

Amar é mudar a alma de casa

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Eu vou me mudar. Mudar de casa, de vida e até de hábitos. Uma vez, conversando com uma velha amiga, soltei a pérola: precisa mudar a minha vida. Ela respondeu numa rapidez que me deu medo: Dora, você já mudou no instante em que deixou sua mãe no interior e veio ser gente grande na capital. True story, mas no fundo a gente sempre quer mais. Agora, estou eu aqui sentada no meu cantinho predileto do prédio, em frente ao lixo coletivo e ao lado do chuveiro onde tomei banhos homéricos depois da praia e antes de dormir. Sentirei saudades do quarta que dividi antes com meu primo e depois com meu irmão, sentirei saudade dos grandes almoços em família, entre amigos e estranhos que presenciei no nosso pequeno playground dos fundos.

O inicio da minha vida adulta foi todinha aqui, meus dramas, meus casos, minhas lágrimas e sorrisos, minhas loucuras e esquisitices, minha vida começou aqui, neste lugar. Acordar tarde quando minha faculdade era a menos de dez leves passadas, voltar tarde da balada sem medo de ser feliz. Se der fome, tem speed, se tem sede, tem paredão, ahhh o paredão. Além da casa, sentirei saudades do bar ao lado da casa, de Val (o garçom que já me viu rir e chorar com um copo de cerveja na mão) e seu “Boa noite, menina!”. As pititingas que comi com os amigos que escolhi serão eternamente guardados no meu baú etílico da memória. Brigas com ex-namorados, beijos no portão, amassos no sofá com medo da fechadura, boys atrás da porta, noites bem dormidas e insônias loucas. Tanta história, uma vida, oito anos no mesmo lugar. Há um tempo reencontrei um amigo no facebook e ele me perguntou por onde andei, respondi que estava no mesmo lugar de sempre, me senti mal com a resposta, será que eu realmente estava no mesmo lugar?! Agora eu sei que não.

Meus amigos sentirão falta do meu lar, nossas festinhas, nossas fotos secretas, nossas panquecas de verdura, nossos vinhos baratos e a nossa juventude. Se você não participou dessa minha vida, não se preocupe que tem mais por vir. Teremos uma nova sala, um novo quarto e uma novíssima Dora. Eu vou mudar, dessa vez, eu juro. Mudar de casa, é mudar o coração de lugar, é deixar para trás toda a dor de uma vida nova e deixar o futuro tomar conta do seu destino. Serei agora a mesma pessoa em um lugar diferente, ou tanto faz, serei apenas eu e um belo recomeço. Já sei que lá perto tem um bar, um posto e em cima alguns amigos que serei vizinha, sorte a minha.

Não posso deixar de citar os bazares da vida, as amigas que fiz e os sorrisos que tirei em troca-trocas e tardes de diversão. Não sei se no meu novo aconchego isso será possível, mas sei que outras tantas coisas acontecerão na minha nova jornada. Desde outubro minha vida se tornou um caos instalado no coração, tudo virou de cabeça pra baixo e desde então rezo por mudanças, novos ares e vida nova, e agora, meses depois, está acontecendo, veio o novo, o futuro chegou por aqui.

Não podia ir embora sem escrever sobre essa parte da minha vida, eu não podia ir embora sem dizer Adeus. E quem quiser viver mais, vem comigo, no caminho eu explico.

                                                                                                               

9 de abril de 2014

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A minha casa está onde está o meu coração
Ele muda, minha casa não…

 

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Em breve novas histórias, novos “quase” amores, receitinhas marotas de drinks e gordices lights, dicas de moda e lifestyle na cidade que ferve as quatro estações, Salvador. Tá ansioso pra curtir o que está por vir, eu também. rs

 

Com amor, Dora.

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29 de janeiro de 2014

Manifesto pela ocupação amorosa dos corações vazios

E de agora em diante, fica estabelecido que todos os corações vazios, mal amados, partidos, abandonados ou tão somente subutilizados serão pacífica e amorosamente invadidos e ocupados pelo amor em todas as suas formas.
Sem paus e pedras e enxadas, mas com flores e música e presentes e simples declarações de apreço e cuidado, o amor tomará posse irrevogável de todo e qualquer coração devoluto. Banqueiros e bancários, construtores e operários, empresários, professores, artistas de rua, profissionais de toda sorte, adultos e crianças e velhinhos, todas as almas solitárias deste mundo! Preparem-se para ceder sem luta à chegada implacável do amor às terras férteis de seus corações.
Abram seus portões, escancarem as portas, liberem as janelas, prendam os cachorros e preparem a casa à visita permanente do amor operário, trabalhador, corajoso e simples. Ele vai chegar sem slogans ou passeatas, sem discursos, gritos de guerra ou enfrentamentos com a polícia. Vai surgir na hora mais silenciosa da noite, deitar ao seu lado e acordar com você na hora de ir ao trabalho, como se ali estivesse desde sempre.

O amor vai chegar assim, de manso, mas com o passo forte e a potência de um jato varrendo a craca dos rancores, a sujeira grossa dos maus pensamentos, a gordura acumulada das chateações diárias, da burrice, da inveja, da grosseria. Virá com a força mesma da vida, desobstruindo os canais da memória entupidos de morte. Virá alegre como o cão que reencontra o dono depois da eternidade de um dia inteiro sozinho em casa, à espera.

E então as preocupações ordinárias e mesquinhas farão as malas e deixarão os corações livres para viver em absoluto estado de ocupação plena pelas intenções e ações de um amor generoso, diário e vital.
Esse amor que acorda cedo e faz ginástica, que parece tão mais jovem do que de fato é, esse amor vai pintar as paredes da casa, mudar a posição dos móveis, vai matar a sede e a fome que restam, soltar os passarinhos de suas gaiolas ridículas, vai cuidar da horta no quintal e presentear os vizinhos com as verduras frescas. Esse amor vai florescer e perdurar e se esparramar pelas redondezas. Vai levar ao passeio diário os cachorros que vivem dentro de cada um de nós. Esse amor vai invadir em paz a nossa vida tão talhada para a guerra.
E quando as forças armadas de um coração já machucado se levantarem em defesa natural de sua estrutura, em puro e simples movimento de autopreservação, o amor estenderá sua mão pequena e linda, de unhas roídas e sem nenhum esmalte, e todas as armas cairão em silêncio. Então esse coração abrirá suas fronteiras à chegada irrefreável do encantamento amoroso e total, explosão de energia que nos leva ao encontro de quem somos, nos resgata da morte e nos devolve, sãos e salvos, à vida que é hoje, amanhã e depois um longo e eterno agora.

Ilustração:  Elena Romanova
O texto que eu queria ter escrito e não tive ânimo.

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